A tecnologia vai matar o futebol - REDS4US - LIVERPOOL BRASIL

 

A FIFA votou a favor da implantação das tecnologias GoalRef e Hawk-Eye de maneira unânime durante a última semana e, provavelmente, essa é uma mudança histórica no futebol. Mas como isso afetará a mudança do esporte e como será implantada? Qual o lado tão negativo dessa implantação tecnológica que gerou tanta resistência não só com os “rulemakers” da FIFA como também com jogadores, jornalistas e amantes do esporte?

Desde que a Reds4us surgiu nos meados de 2009, durante as transmissões, como bons vanguardistas que somos, falávamos absurdamente a favor da mudança tecnológica no futebol, independente de certas situações terem interferido ou não contra o Liverpool.

Ao longo da história, são já considerados clássicos alguns momentos que mudaram o curso das maiores competições mundiais por conta do erro humano no futebol. São considerados mesmo momentos belos do esporte, como quando Maradona foi médium da “Mão de Deus”. Observe no vídeo linkado como é exaltado o momento, e realmente, dá até uma emoção vendo o lance. Nós crescemos vendo esse lance como algo mágico e sendo exaltado como uma virtude do esporte. A malandragem, a ginga, a malícia de enganar para vencer. “Melhor ganhar roubado”. E por aí vai. E ao contrário do pensamento nacional, esse tipo de pensamento se tornou há tempos bastante internacional, afinal, alcançar maiores conquistas, num esporte onde o erro humano é tão fácil de ser induzido, é praticamente relacionado a, em algum momento, ter uma vitória discutível que influencia no resultado final de uma temporada ou copa.

A Coréia do Sul, dona da casa em 2002 com o Japão, foi um exemplo clássico na era moderna do esporte. Fato que passou despercebido para a maioria dos brasileiros, campeões daquela edição. Mas é difícil negar o quanto ela foi beneficiada pela falta de tecnologia e o quanto a Itália e a Espanha foram prejudicadas. A maioria dos leitores não devem lembrar, claro, mas abaixo temos um replay extendido dos momentos dessas partidas. A exaltada Coréia do Sul, em 2002, se tornou a melhor colocação asiática em copas do mundo. Ficando com o quarto lugar com um futebol sujo, anti-esportivo e patético.

É fato histórico que os jogadores italianos não trocaram camisas com os jogadores coreanos. Mas a imprensa não falou disso e nem lembra disso, tanto aqui quanto fora, o Brasil é penta e é o que importa. E de fato, é um fato melhor a ser lembrado do que o quanto o futebol é um esporte desleal e o quanto um grupo pequeno pode influenciar de maneira negativa todo um trabalho técnico e o esforço de quem realmente faz esse esporte, os jogadores, os técnicos e as torcidas. Seja intencional ou não (difícil dizer que não foi no caso acima), o resultado é modificado e toda essa magia do esporte, se perde para o perdedor. Creio que todo mundo que acompanha futebol há mais de 10 anos, provavelmente já vivenciou isso pelo menos uma vez por algum clube ou seleção e sabe bem como o sentimento de injustiça é forte. Pior do que jogar melhor e perder uma partida, algo do esporte, é perder uma partida jogando melhor por falta de tecnologia nele.

Platini, pela UEFA, quis mudar isso nessa Eurocopa. Colocando os “line-referees” ou “line-assistants” ou sei lá o nome deles (“árbitros de linha de fundo”, não sei se já criaram um nome para eles em português, mal tem um nome certo em inglês ainda) para ajudarem em jogadas ali, há dois ou três metros do gol. Contudo, não foi o suficiente, como fica evidente pelo lance da Inglaterra contra a Ucrânia. Alguns podem declarar que não dar o gol foi “justo”, afinal, o jogador ucraniano que dá o passe para o lance final estava impedido no lance anterior, mas um erro não justifica o outro, pelo contrário, apenas se soma a carga de erro humano na partida para o dobro.

Segundo Sepp Blatter, presidente da FIFA, foi o lance de Frank Lampard em 2010 que deu o empurrão final para a FIFA decidir tomar o rumo da mudança numa partida espetacular que muito provavelmente teria outra direção caso o gol fosse validado.

Especialmente com a evolução da internet modificando o funcionamento da distribuição da informação, é possível ver o quanto de lances bizarros, como esse, acontecido na Alemanha, são lugar comum no futebol, ano após ano. Henry e o gol de mão da França que levou uma seleção pífia, desconjuntada e uma vergonha para o esporte para a copa em 2010, Benayoun e o gol claro contra o Atlético de Madrid, o gol de Andy Carroll contra o Chelsea na final da FA Cup, esse gol do Japão com falta clara no goleiro australiano e tantos outros lances que poderia bem fazer uma lista com provavelmente centenas deles que teriam mais algumas dezenas por ano.

Não é por mero acaso também que a mudança demorou para ser aceita pela FIFA. Quando ela abriu as portas para as tecnologias serem testadas, apenas 8 projetos apareceram com ideias prontas a serem testadas imediatamente. Se não há grupos desenvolvendo tais tecnologias, de fato, é difícil tê-las para testar. Em contraparte, a iniciativa poderia ter vindo da própria FIFA com muita antecedência, recursos para ela mesma desenvolver ou solicitar para que desenvolvesse nunca faltaram, sendo o esporte que mais fatura mundialmente.

Das oito tecnologias testadas, duas foram aprovadas por conterem margem de erro 0.

 

As tecnologias são as seguintes:

Hawk-Eye: utiliza seis câmeras. São focadas no gol e rastreiam a bola pelo campo. Ela usa triangulação para demarcar de maneira extremamente aguçada a localização da bola. Se a bola cruzar a linha, um sinal de rádio encriptado é enviado para o árbitro num relógio de pulso que informa que a bola entrou, o processo leva menos do que um segundo para ocorrer.

GoalRef: usa um microchip dentro da bola e baixos sinais magnéticos em volta do gol. O sistema então detecta a introdução desse sinal dentro da bola para determinar se houve mudança no campo magnético dentro do gol. O processo também leva menos de um segundo para apontar um resultado eletrônico para o árbitro.

 

Elas serão utilizadas no Mundial de Clubes, na Copa das Confederações e na próxima Copa do Mundo, em 2014, se o mundo ainda existir até lá.

A Premier League declarou que deseja utilizá-las “o mais cedo possível” e que será decidido em conjunto com os 72 clubes da Football League qual será o sistema preferido.

A UEFA ainda não deu seu voto final sobre a tecnologia ser implantada na Uefa Europa League e na Uefa Champions League. Segundo Blatter, Platini é favor de mais árbitros – que já se mostraram ineficientes, como mostrado acima – e teme que de GoalRef ou Hawkeye as decisões em campo comecem a ser maiores, como dentro da área ou outras partes do campo. Da mesma forma, Blatter espera que Platini irá ceder a isso por conta da unanimidade demonstrada dentro da votação a favor da tecnologia.

O que isso muda para o torcedor?

Basicamente, nada. O tipo de lance da bola não entrar/entrar acontece em poucas partidas por temporada, a questão é que ela ocorre. Quando um time fizer gol, será gol. Ponto. O tempo de decisão para um árbitro não será afetado. A bola bateu perto da linha, o relógio anuncia se entrou. Juiz sinaliza. Gol. Fim.

O esporte não será exatamente ainda mais justo e equilibrado nos erros com o envolvimento dessa tecnologia. Impedimentos e pênaltis, ainda existirão para quem ainda acredita que a “essência do futebol” seja a discussão sobre o erro humano ao invés de embates táticos, dribles, lances bonitos e partidas vencidas por mérito e não erros da arbitragem. O futebol por si só, sem a interferência da arbitragem, já possui 22 seres humanos (e mais 6 reservas que geralmente entram durante as partidas) para demonstrarem suas excelências e erros para a nossa discussão.

E o futuro, se mais tecnologia entrar, isso morrerá?

Não creio que a FIFA irá aderir aos replays tão cedo, como no Rugby ou Futebol Americano. Ainda se fossem, duvido muito que tomariam decisões onde todo lance seria parado para observar o replay. No Futebol Americano não é assim, nem no Rugby. Não seria interessante cada time ter pelo menos dois replays por partida com um tempo de decisão mínimo onde o quarto árbitro passa o aval da jogada vendo o replay? Já disse antes que acho muito fácil se posicionar contra a tecnologia quando você está com uma frequência assustadora do lado da parte favorecida (a.k.a. times e seleções mais midiáticos). A própria FIFA já havia considerado reduzir o tempo de jogo para 40 minutos por tempo há alguns anos atrás, por conta dos calendários apertados.

MAS REPLAYS IRÃO MATAR O FUTEBOL.

Irão? Até 1925 a regra de impedimento consistia em três jogadores defensivos (2 zagueiros + goleiro, por exemplo) e a diminuição para dois jogadores aumentou na temporada conseguinte a média de 2,543 gols por partida para 3,448 gols por partida no ano conseguinte. Veja que estamos falando de uma mudança de regra a quase um século atrás. Mas somente em 1990, ano da Copa da Itália, que a regra de impedimento foi modificada para o jogador ser considerado “onside” (não impedido) quando na mesma linha do penúltimo defensor.

A mudança da regra foi ruim? Matou o futebol? Essa regra tem menos de 30 anos e é com certeza um sucesso a parte.

Fato comumente esquecido é que existe também a interpretação do árbitro. Digamos que um replay seja pedido por um técnico do time que atacava e o zagueiro bateu com o braço na mão. O árbitro para a jogada. O quarto árbitro vê o replay e interpreta que não houve pênalti, nada é concedido. De maneira alguma eu vejo isso causando menos discussão ao invés de mais. A única coisa perdida nisso, é a possibilidade do esporte se tornar mais responsável com os próprios resultados, em especial, para os times menos favorecidos. Por que?

A FIFA não deixou claro quem pagará pela implantação nos estádios. Ou seja, isso seria uma responsabilidade da liga. Vejamos o seguinte prospecto. A Premier League instala a tecnologia em todos os estádios da Premier League, contudo, ainda existem as partidas da FA Cup e da Carling Cup, as partidas pela UEL/UCL com times que não possuirão ainda tal tecnologia. A discussão será reduzida? Parcialmente. Irá acabar? De maneira nenhuma.

No Futebol Americano mesmo eu vi um lance bizonho de erro claro da arbitragem, replay feito, a bola toca no chão, a arbitragem considera um touchdown mesmo assim.O Futebol Americano empobreceu com isso? Pelo contrário, continua crescendo e crescendo e ganhando o mundo com seu exemplo de monetização de produtos e conteúdos específicos.

Quando vejo gente falando de perder a “essência do futebol”, não vejo o quanto as mesmas pessoas discutem o que é essa essência. Da mesma forma como tudo na vida, nada vem de graça, a gente aprende a escrever com esforço, aprende a entender certos elementos do mundo e da vida através da reflexão e assim também é com a “essência do futebol”.

O que é a “essência do futebol”?

Discussão? Dribles? Jogadas bonitas? Jogadas feias? Táticas melhores e piores? Substituições acertadas e erradas? Bolas na trave? Lances duvidosos? Acredito que a grande maioria concordaria que todos os elementos anteriores fazem parte dessa “essência”. Com tecnologia para gols serem apontados e num futuro, quem sabe, com replays, essa essência não será perdida. Replay no telão, juiz não marca o pênalti ou marca, aplausos a favor ou contra a decisão. Nos bares, torcedores discutirão a mesma coisa, foi, não foi? Acertou ou errou o árbitro? Houve intenção ou não do zagueiro/atacante em levar a mão à bola?

Honestamente, o que vejo são pessoas não argumentando a favor da “essência do futebol”, mas sim, argumentando a favor de manter as coisas como estão, sem ao menos considerar os benefícios de tais mudanças e as prováveis mudanças positivas ou negativas delas. Pessoas argumentando em manter as coisas como estão pela simples preguiça de considerar algo novo. Muitos disseram que  os celulares não iriam vingar, muitos disseram que os carros nunca seriam vendidos e produzidos em massa, muitos disseram que os blogs eram apenas uma novidade passageira e hoje olhamos para trás e vemos como a cada década algo mudou completamente as nossas vidas. Podemos dizer que os carros são ruins? Em termos, sim e também não. E celulares? Quantas vezes não fomos salvos por um? Com o advento dos smartphones até sequestros são resolvidos por causa deles. E os computadores e a internet? Quão mais democrática não é a informação e a cultura com ela?

O mundo já mudou e como sempre, quem tem mais facilidade de aceitar tais mudanças tem mais facilidade em viver o momento. E se a avó da minha noiva, com mais de 70 anos, aprendeu a usar o Facebook e câmera digital, a “nova” geração não deve ter problemas em reconhecer o benefício da tecnologia no esporte. Ou pelo menos, não deveria.

 

Perezdi
Diego Perez A essência do futebol só morrerá quando o futebol não mais existir.


 

14 na conta do Papa

  1. RedDog 07/08/2012, 15:15 Responder

    E já estão planejando um triangulamento 3D que pode em alguns anos “acabar” com o bandeirinha: As câmeras criariam um 3D em tempo real da partida, avisando quando o jogador estiver em impedimento, sendo necessário apenas uma pessoa para conferir os lances, mas sem necessidade básica de replay ou grandes pausas.
    O problema é que demorou quase 10 anos pra FIFA aceitar o da linha do gol, vai demorar uns 50 pra aceitarem esse [depois que for aperfeiçoado].

    • Perez 07/08/2012, 15:38 Responder

      Claro que você está exagerando quanto a isso. Acho que levará um tempo sim, mas isso vai mudar hora ou outra. Resistência pode existir, mas chega hora onde ou o esporte se adapta, ou perde espaço e interesse.

  2. Nicolas 07/08/2012, 17:29 Responder

    Muito bom o texto e sem dúvidas concordo inteiramente com ele. Dois lances de replay por partida não atrapalharia o rumo do jogo, mas cada decisão deveria ser tomada em no mínimo 1 minuto e meio. A “raiva” dessa injustiça aparece mesmo 10 anos depois. Quase inaceitável vermos esse lance da Koreia contra Itália e Espanha.

  3. Henrique 07/08/2012, 19:52 Responder

    Olhem o q eu achei aqui, ótimo texto sobre KING KENNY

  4. Arthur Novello 07/08/2012, 23:02 Responder

    Acho que deveriam criar um meio tecnológico não só para casos de gol, mas também para impedimentos, na minha cabeça é o erro que mais atrapalha o jogo.

    • Perez 07/09/2012, 11:30 Responder

      Concordo, isso provavelmente vai ser implantado num futuro próximo (veja o comentário do Fidel acima).

  5. Pablito Barros 07/09/2012, 19:51 Responder

    Mais um excelente texto. Vocês da REDS4US são feras. Sempre dou uma checada por aqui, mesmo depois de ter um comentário meu ter sido censurado (quero acreditar que tenha sido por engano).

    • Perez 07/09/2012, 19:56 Responder

      Que comentário, em que tópico, o que falava?

      Vale lembrar, nós não somos obrigados a ter todos os comentários por aqui, mesmo por que somos responsáveis pelo conteúdo deles.

      • Pablito Barros 07/10/2012, 18:37 Responder

        Perguntei se KK não estaria errado ao escalar o Henderson como “winger”, sendo que o mesmo só rende como meia central, como ele fez na derrota do ET na Euro frente a Italia. Meu comentário foi apagado.

        • Perez 07/11/2012, 16:36 Responder

          Acho bem injusto você assumir isso de bate-pronto. Até por que nós gostamos de responder, conversar e discutir. Isso é uma das marcas desse site. Por que apagaríamos uma pergunta feita educadamente no site e que geraria uma boa discussão nos comentários? Simplesmente não faz sentido a “acusação”.

          Um pensamento mais justo é tentar entender o que ocorreu. Existem inúmeras explicações mais sensatas do que “apagaram”. Bugs diversos, fizemos mudança de servidor e perdemos várias coisas do site (isso é verdade), comentários com mais de um link podem ir automaticamente para o spam e nós não ficamos checando se no spam tem “comentários autênticos” pois temos mais o que fazer. Fora que, o comentário aparece para você mas não necessariamente é visto automaticamente para o público… enfim… até nós já tivemos nossos comentários perdidos e creio que quase todo mundo aqui já teve…

          • Pablito Barros 07/14/2012, 09:31

            Você está certo. Usei a palavra errada, às pressas. Peço desculpas.

  6. Caio Pistori 07/23/2012, 11:48 Responder

    Só tive oportunidade de ler esse texto agora. Excelente por sinal. Sou favorável ao uso da tecnologia no futebol. Quanto menos erros de arbitragem ocorrer no jogo, melhor. Não concordo com alguns que a regra do futebol é clara (certo, Arnaldo), ela, em muitos casos, é interpretativa. Por isso, será muito difícil que não haja erros durante uma partida. Mas isso já é um começo.

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